VENDE-SE EMPODERAMENTO

11 de agosto de 2017


Você já reparou que cada vez mais a publicidade tem vendido o empoderamento em suas campanhas? Seja na maquiagem, na moda ou até mesmo nos produtos de limpeza. Essa palavrinha permeia todas as esferas de nossas vidas.

A palavra empoderamento significa dar poder a um grupo tradicionalmente excluído, emancipar, principalmente no campo político e social, dando subsídios para que essa parcela da sociedade possa se desenvolver. Ou seja, empoderar-se, de fato, vai muito além da aparência e não é uma coisa individual, acontece na coletividade.


Tenho a impressão de que o termo se tornou um produto que compramos em gôndolas de supermercado, tipo "qual empoderamento vou levar pra casa hoje?". Alguns podem pensar que isso é um grande avanço nos tempos atuais. Eu não vejo dessa forma. Até mesmo a tal visibilidade é seletiva. É fácil achar que estamos quebrando padrões dentro da sociedade quando o mesmo estereótipo é vendido, ainda que de cara nova. Pessoas com o rosto cheio de maquiagem, corpo padrão, coreografias vulgares e hiperssexualização... Onde isso é uma quebra de padrões nesse Brasil que ouvia "ela fez a cobra subir / a cobra subir / a cobra subir" (É o Tchan), nos anos 90?


Mulheres continuam aparecendo na TV praticamente nuas, pessoas trans e travestis continuam fazendo parte da indústria do entretenimento, quando muito - e só para lembrar, o Brasil é o país que mais consome pornografia que envolve trans e o que mais mata essa população.


Acredite: se esse tal empoderamento fosse algo subversivo, não estaria na grande mídia. Revolucionar e mudar a forma de pensar no Brasil não acontece da noite para o dia e não é bem aceito - nem mesmo esse texto será bem aceito, aposto. Estamos no país onde boa parte da população acha normal ter alguém limpando sua privada ou te servindo. No país que aceita pessoas trans e travestis no palco, mas não tolera a mesma trans dando aula no colégio do filho. No país que tira foto com jogador de futebol assassino mas exige pena de morte pra ladrão de margarina.


E há quem diga que agora a mulher não é mais submissa... Bom, aqui na terra onde eu vivo a maioria das mulheres permanecem caladas em casa por medo de apanhar do marido, porque dependem financeiramente deles ou por medo. Aqui onde eu vivo as mulheres são minorias nas cadeiras universitárias e quase invisíveis nos bancos de Mestrado e Doutorado. São as que ainda ganham menos e trabalham mais. Não importa o quanto as mulheres dancem até o chão nas boates, certamente continuam com medo no caminho de volta pra casa. Isso é ter liberdade e ser empoderada?


Há também aquele falso empoderamento das campanhas publicitárias das marcas de maquiagem. Esquecemos que as empresas descoladinhas continuam sendo empresas: instituições que visam o lucro acima de qualquer bem-estar social ou político. Pergunto: é interessante para essas empresas uma mulher empoderada (de verdade) sem precisar de um batom "lacrador"? A única pessoa que sai ganhando é a contratada para estampar capas de revistas e comerciais vinculados na mídia, continuamos sem provocar qualquer mudança substancial. Essa é a verdadeira apropriação, que transforma uma luta política em disputa de egos, concursos de beleza e discursos rasos.


Eu não compro empoderamento e recomendo que nenhuma mulher aceite migalhas apenas por ser "o que tem pra hoje". Exija mais, lute para ser mais. Não somos apenas consumidores, somos seres humanos e merecemos discursos mais profundos acerca de tudo que afeta nossas vidas.


Até a próxima!

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